Foi na noite de 9 para 10 de Novembro de 1989 que o Muro de Berlim, construído em Agosto de 1961 para separar Berlim Leste de Berlim Ocidental, caiu. A queda do muro, mais do que simbolizar a queda dos regimes comunistas no Leste Europeu, abriu as portas para a reunificação da Alemanha, retalhada depois da Segunda Guerra Mundial, e para a Unificação da Europa. O muro da vergonha caiu há 20 anos. Hoje, simbolicamente, cairão dominós gigantes de esferovite. Será em Berlim, onde tudo começou a acabar.
09 Novembro 2009
30 Outubro 2009
O Laço Branco
Este é um filme - e escrevo-o sem qualquer exagero - sobre a maldade humana, sobre a sórdida crueldade dos seres humanos. Das weiße Band - Eine deutsche Kindergeschichte (O Laço Branco - um conto infantil alemão) é narrada - tal e qual como uma história para crianças - por uma voz envelhecida, que sabemos ser do professor de uma aldeia alemã. Ele vai contar-nos sobre os estranhos acontecimentos que sucederam na aldeia pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial. Há acidentes inexplicáveis que acontecem, há o médico que cai do cavalo, há os repolhos do Barão, há um Pastor protestante que ata uma fita branca nos filhos, há um incêndio... Há tortura e há morte, há crianças entrelaçadas nas vidas dos adultos, há uma imensa crueldade do princípio ao fim.
Michael Haneke filma - muito a propósito - a preto e branco, como que a envolver ainda mais essa sordidez toda num ambiente a condizer. A fotografia é aliás imbeliscável! A encenação faz lembrar muito um filme de Ingmar Bergman, o próprio Pastor parece aliás retirado de Fanny e Alexandre. Haneke arrisca muito. E ganha. É certo que já ninguém faz filmes assim, mas é precisamente por isso que O Laço Branco se assume como uma invulgar e preciosa obra de arte. Os espectadores escutam cada vez mais chocados este conto sarcasticamente chamado de infantil, apenas porque as crianças nele ocupam um lugar de destaque. No final, quando a voz idosa conclui a sua história e os aldeões vão entrando na igreja, ninguém sabe (ou será que sim?) quem foi o responsável pelo que se passou na aldeia, mas isso não importa grande coisa. O trabalho está feito. A maldade pode ser muita, mas o filme é esmagador.
O Laço Branco ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano e é a indicação alemã para Melhor Filme Estrangeiro na próxima cerimónia dos Oscares. Encontra-se em exibição na Alemanha mas ainda não tem data de estreia marcada em Portugal. Contudo será exibido no Estoril Film Festival, dia 7 de Novembro às 22:00.
27 Outubro 2009
A Canção de Marchar
Foto: © David Gannon / AFP Photo
Sempre que o domingo, como dizia o papá, chegava ao céu, o papá encontrava esses estilhaços na sopa. O papá, na condição de herói alemão da guerra, tinha três deles no pulmão. Eles mudavam-se de um lugar para outro. O papá tinha medo de que um dia se mudassem para o coração. Aí será o fim, disse o papá.
Um dia, os estilhaços chegaram ao rosto do papá, e o papá não fez a barba durante vários dias.
Quando eu olhava, o papá punha a colher sobre os estilhaços ou enterrava-os debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume. Na hora de lavar a louça, os estilhaços tiniam no seu prato.
Um dia nós estávamos a visitar a irmã do papá e ela serviu uma sopa rala. O papá mais uma vez encontrou os estilhaços no seu prato. E como não pôde enterrá-los debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume, o papá engoliu os estilhaços. Todos haviam acabado com a sopa nos seus pratos, elogiado os dotes culinários da minha tia.
Depois da refeição as mulheres dançaram umas com as outras. A minha mãe, pequena e seca, dançava, suando, com a minha tia gorda. A irmã do meu pai ria, e as suas bochechas tremiam o tempo todo.
Os homens haviam ficado à mesa e cantavam canções de guerra alemãs. Quando as mulheres passavam por eles dançando, os homens davam palmadas nas suas nádegas grossas e saltitantes. As mulheres riam alto, davam passos de dança ainda mais saltitantes e movimentavam os braços para cima e para baixo. O papá seguia o compasso, batendo com sua mão imensa sobre o tampo da mesa: "E a minha noiva, a Loiva, é igualzinha a mim".
Quando estava a anoitecer, o papá levantou-se e cantou, em pé e com os lábios tremebundos e os olhos vermelhos, a canção de marchar. As minhas tias balançavam as pequenas cabeças e tinham os olhos húmidos.
Na terceira estrofe o papá curvou-se de dor.Desde aquele dia nós íamos todos os anos visitar a irmã do papá e era-nos servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres dançavam umas com as outras. A minha mãe ficava sempre sentada, pálida e a passar frio, a um canto da sala. Os seus olhos ficavam molhados e ela voltava a puxar de volta à testa as lágrimas tépidas que insistiam em forçar a passagem através do seu nariz. Ela embolava o seu lenço na mão congelada, soluçava, dizendo que o meu pai era inesquecível, que ele continuava a ser o mesmo para ela. Também a irmã do meu pai se afundava numa cadeira e chorava longas frases. E as suas bochechas tremiam nas palavras afogadas.
Os homens que haviam ficado à mesa cantavam canções de guerra. Sempre, quando anoitecia, eles levantavam-se. Ficavam parados à volta da mesa. Dos seus olhos vermelhos, um brilho profundamente vermelho deitava-se sobre a toalha de mesa, entre as suas grandes mãos. Eles olhavam paralisados dentro desse brilho vermelho e cantavam, com lábios tremebundos, a canção de marchar.
Todos os anos um deles se curvava de dor na terceira estrofe e morria.
No ano passado nós mais uma vez estávamos a visitar a irmã do papá e foi-nos servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres levantaram-se e a mesa estava vazia. Cada uma das tias sentou-se, pálida e passando frio, a um canto da sala e chorou, pressionando o lenço sobre as lágrimas tépidas, sobre o rosto, e soluçou dizendo que o seu marido era inesquecível e continuava a ser o mesmo para ela.
Quando estava a anoitecer as mulheres levantaram-se e puseram-se à volta da mesa. E através do vão da porta do armário semifechada, soou a gravação com a canção de marchar. As minhas tias ficaram paradas, imóveis e mudas. Na segunda estrofe a minha mãe pequena e seca cantarolou, sem abrir a boca. Na comissura dos seus lábios movia-se uma sombra fraca. Quando chegaram à terceira estrofe, a irmã gorda do papá cantarolou, de boca fechada. A canção tremeu nas suas bochechas e sua testa estava branca. Na quarta estrofe a minha tia mais gorda cantarolou. Ela respirava profundamente durante a canção e sobre os seus seios os botões nas suas molduras finas e douradas brilhavam como se fossem medalhas.
Quando a canção chegou ao fim, a irmã do papá estava à frente do armário. As suas mãos estavam pesadas da luz do crepúsculo, e com as pontas mudas dos dedos ela fechou a porta do armário.
O cantarolar pairou ainda por muito tempo no ar da sala. O cantarolar estava já monótono e cansado. E era ilimitado no crepúsculo.
conto incluído na antologia Escombros e Caprichos: O Melhor do Conto Alemão no Século 20 (L&PM, 2004)
adaptação para Português Europeu: Gonçalo Figueiredo Augusto
24 Outubro 2009
Sábado em Lisboa
© Gonçalo Figueiredo Augusto, 2009
Já não chove há dois dias. O sol brilha uma vez mais. Lisboa sai à rua. Está um belo dia de outono. O Chiado está cheio de gente em cortejo para cima e para baixo. Há livros em segunda mão na Rua da Anchieta. As montras estão preparadas para receber olhares demorados, sejam lojas de roupa ou livrarias. Na Bertrand há Caims e Cavalos a sorrir aos transeuntes. No quiosque ao lado Saramago figura em três ou quatro capas de jornal. O livro pode não valer nada, mas é um sucesso. Uma senhora pega num e vai direitinha a uma página que parecia saber de cor
"Olha para isto"
a amiga aproxima-se e lêem as duas
"além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso"
e depois olham uma para a outra sem saberem o que dizer. A senhora pousa o livro e saltam para o livro ao lado. É mais ou menos assim que se vêem as grandes obras e os livros maus. As grandes obras permanecem calmas nas estantes, plenamente confiantes de que hão-de lá ficar muitos anos sem precisarem de frases imbecis para serem compradas. Os livros maus têm necessidade dessas muletas para alguém olhar para eles, para venderem, para venderem muito. Saramago é um mestre do marketing, apesar de dele dizerem que é um velho gagá. Se "Caim" vende - e estou convencido de que vende bastante - a ele e às coisas que vai dizendo o deve. Sozinho "Caim" não se aguentaria, mesmo que a capa seja até esteticamente aceitável, com uma Verónica esburacada na testa por um sniper qualquer. A "Montanha Mágica" está muito mais escondida. É preciso ir lá procurá-la. Custa uma fortuna, mas isso não é de espantar: recordo que estamos em Lisboa, capital da República Portuguesa. Hoje em dia Thomas Mann é um escritor um tanto démodé. A reedição da "Montanha Mágica" numa nova tradução veio ressuscitá-lo. Muito justamente, diga-se. Thomas Mann nunca precisou de dizer lérias para ser um escritor nem para fazer vender livros. No início do século XX ele era um best-seller na Alemanha, até que Hitler chegou e lhe usurpou o lugar. Outro mais ao lado: Maugham. Quem é que lê Somerset Maugham hoje em dia? Felizmente algumas pessoas. Maugham está a voltar, dizem os jornais ingleses. De facto volta a pouco e pouco. Também ele foi uma estrela no seu tempo. Viveu muito e vendeu muito também, até cair por alguns anos no esquecimento e, por um golpe do destino, voltar devagarinho com novos leitores. Outros há que não tiveram a mesma sorte. Ou porque nunca os reeditaram ou porque caíram no esquecimento. Quem se lembrará deles se não os vir nas prateleiras das livrarias? Os romances de Zola nem sempre lá estão. Roger Martin du Garde nem vê-lo. Strindberg tem dias. E tantos outros. De "Caim" em "Caim", as livrarias vão jubilando. A mais de dez anos de distância, o Prémio Nobel de Saramago parece um acidente. Como se o telefone de qualquer outro escritor pudesse ter tocado naquele dia com a notícia. Este ano tocou o de Hertha Müller e a senhora deve ter caído para o lado com a surpresa. Os Prémios não fazem os escritores. Isso é hoje tão óbvio. E depois de ver o escritor octagenário debater com um padre A Bíblia em horário nobre não posso estar senão certo de que Portugal não anda muito bem. Não me admiraria se o visse entrar no serviço de Medicina 2C do Hospital Santa Maria um dia destes. E nesse dia eu e os meus colegas vamos fazer a história clínica de um país que, de tão velho e de tão maltratado, ficou senil e demente e não pode fazer outra coisa senão abrir a boca onde apenas um dente sorri e pedir humilhado ajuda para ir à casa de banho fazer chichi.
18 Outubro 2009
Tudo sobre a minha mãe
Creio não exagerar se disser que Almodóvar conseguiu com este filme o que nunca tinha conseguido antes e que não voltou a conseguir depois, pelo menos até agora. Tudo sobre a minha mãe toca os píncaros, chega alto, muito alto. Ou se quisermos vai, pelo contrário, bem ao fundo de nós. Manuela regressa a Barcelona em busca de um passado com 17 anos. Procura o pai do filho que então esperava. Esse filho já não existe. Em Barcelona Manuela volta a cruzar-se com a sua velha amiga Agrado. E cruza-se com a actriz Huma Rojo, a mulher que o seu filho perseguia para pedir um autógrafo no momento em que foi atropelado. E cruza-se com Rosa, cujo destino se parece um pouco ao de Manuela. E finalmente surge Lola, o homem que Manuela procura sem nunca chegar a procurar. Lola surge como por acaso, como um fantasma que assombra várias vidas: a de Manuela, a de Estéban, a Rosa. Manuela regressa a Madrid com um filho nos braços. Estéban, como o outro.
Tudo sobre a minha mãe é esse filme em que Almodóvar consegue com mestria entrelaçar as emoções das personagens com as do espectador como nunca tinha feito antes. Manuela, Estéban, Agrado, Rosa, Huma, todos têm um pouco de nós, seja de força ou de fragilidade, de alegria ou de circunspecção, de sonho ou de derrota. Este melodrama feminino é também preenchido com homenagens. Logo no início a homenagem a Bette Davis ("All About Eve quer dizer Tudo sobre Eva"), depois também a Capote, a Tennessee Williams (Um Eléctrico Chamado Desejo) ou a Lorca, por exemplo.
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Pedro Almodóvar,
Tudo sobre a minha mãe
12 Outubro 2009
Prémio do Sveriges Riksbank em Ciências Económicas em memória de Alfred Nobel 2009
Fotos: © Universidfade de Indiana, © Universidade da Califórnia, Berkeley
O Prémio do Sveriges Riksbank em Ciências Económicas em memória de Alfred Nobel foi este ano atribuído a Elinor Ostrom - a primeira mulher a ser distinguida com este prémio - "pela sua análise da governação económica, especialmente a propriedade comum"; e a Oliver Williamson, "pela sua análise da governação económica, especialmente os limites das corporações".
Os dois economistas norte-americanos demonstraram nas suas investigações como a propriedade comum pode ser gerida de uma forma rentável pelas associações de utilizadores, e como as empresas podem funcionar como estruturas de resolução de conflitos. "Nas últimas três décadas, estes trabalhos seminais contribuíram para fazer avançar a pesquisa na governação económica das margens para a dianteira da atenção científica", declarou o comité.
11 Outubro 2009
500
© Gonçalo Figueiredo Augusto, 2009
Eis a mensagem número 500. Não é absolutamente nada de especial. É apenas um número. Não é como nos livros em que se podem colocar fitas vermelhas ou cor de rosa a informar sobre o número de exemplares vendidos. Sabe-se lá porquê isso faz vender. Mas num blogue não. Um blogue com 500 mensagens publicadas é algo do mais normal. Ter demorado pouco mais de quatro anos a chegar lá é que é talvez o cúmulo da preguiça. Mas se chegassem todos ao mesmo tempo, que graça teria? Muito pouca. Mas oxalá não demore outros quatro anos a chegar às 1000 mensagens. De qualquer dos modos, até lá por cá continuaremos. Para o que der e vier.
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