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17 Janeiro 2011

Rabbit Hole

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Talvez toda a ternura possa caber numa toca de coelho. Ou se calhar toda a dor, toda a angústia de uma perda possa subitamente escapar para ali, existir escondida de nós até eventualmente sair um dia da toca. Não, o título do novo filme de John Cameron Mitchell (Hedwig, Shortbus), com Nicole Kidman e Aaron Eckhart não tem exactamente a ver com isto e por isso mesmo é que tem tudo a ver.
Somos confrontados com um facto consumado: Becca e Howie perderam o seu filho de quatro anos há oito meses. Desde aí têm sobrevivido dia após dia. Assistem a sessões terapêuticas com casais que passaram pelo mesmo. Becca não suporta ouvir a resignação dos outros. Nenhum deus tinha o direito de tirar-lhe o filho. A irmã de Becca engravida. A mãe de Becca não pára de falar no filho que perdeu. Becca não suporta a comparação entre o seu irmão toxicodependente e o seu filho inocente, atropelado quando perseguia o cão. Becca tenta levar a vida para a frente. Howie tenta o mesmo. Mas eles já não são os mesmos. A mãe de Becca compara a dor da perda a uma pedra no bolso. Por vezes esquecemo-nos dela mas quando metemos a mão ela está lá. E não a queremos deitar fora. A vida continua. A ordem natural das coisas foi quebrada, mas a vida continua implacavelmente. O que virá depois? Uma mão que encontra outra numa contemplação do crespúsculo. Becca pergunta: "E depois?". O marido responde: "Não sei. Mas alguma coisa virá." Alguma coisa virá sempre. A ternura ainda lá está. Apesar de tudo a ternura estará lá sempre.

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