É dia um de Maio e pela primeira vez vejo senhoras a acompanharem-se de velhotas no café. São delicadezas de filha no dia das mães. A velhota inclinada, a arrastar os pés, a fitar o chão, a filha a manobrar-lhe os braços de modo a que o casaco seja despido com mais suavidade, a empurrar-lhe a cadeira, a endireitar-lhe as costas, a sorrir para ela sem que a velhota lhe dê importância. Que importância tem um sorriso nesta altura? Hoje tomam café, amanhã atiram-na para um hospital com um beijo repenicado na testa. Olho isto sem nenhuma ternura especial. E lembro-me de algo que li há anos num livro chamado Antes del fin. O livro referia-se a páginas tantas aos sinais da existência de Deus: "Mostrando-nos que nem tudo nesta vida é miserável, mesquinho e sujo, e que esse pobre ser humano anónimo, tal como estas florzinhas, é a prova do Absoluto". Isto é citado um pouco de cor, mas fez-me pensar desde então no Absoluto. É tão difícil acreditar nas pessoas, quanto mais em Deus. O homem que escreveu isto morreu ontem aos 99 anos e chamava-se Ernesto Sabato. Nunca o conheci sempre tive uma enorme intimidade com o que ele escrevia. Era um escritor honesto e capaz de ir onde eu sempre achei que qualquer escritor devia ir: ao fundo de nós. É difícil ir tão longe. Mal começamos a ver-nos ao espelho temos vontade de fugir, temos receio de ir mais além. Há muito pó debaixo do tapete. Tenho procurado esses sinais do Absoluto desde então. Mas nenhum Deus existe para ser compreendido. Sabato passou os últimos anos da sua vida sem poder fazer o que mais gostava: ler e escrever. Os médicos proibiram-no. E isso devia ser uma tortura. Sabato completaria 100 anos em Junho. Vivia perto de Buenos Aires e era possivelmente o maior escritor argentino vivo. Olho de novo para a velhota. Ela deve ser dez ou quinze anos mais nova do que Sabato. O olhar perde-se no horizonte da chávena de café. Ela deve saber que os seres humanos são miseráveis por natureza e que muito pouco os pode salvar. Sabato fala da felicidade das coisas pequenas: os passarinhos a chilrear de manhã, o gato que vem dormir aninhado nas suas pernas, as flores coloridas no seu jardim. Sabato deveria adorar tanto o pôr-do-sol em Lisboa como eu, a luz do crepúsculo a cair sobre a cidade, a fumaça do cigarro que levita sobre mim. Talvez o Absoluto seja isso mesmo. Um beijo, um abraço demorado, um olhar, um sorriso pequeno, um cigarro e um café, um fim de tarde com vista sobre a cidade, um eléctrico cheio de turistas encantados com uma cidade no fim da Europa, uma criança que descobre o mar cabe inteiro dentro de uma concha. A velhota terminou o café e eu há muito que terminei o meu também. Sabato está aqui ao meu lado a fitar a chuva a cair do lado de lá do vidro. Ainda bem que havia mesas cá dentro, Ernesto. A esta hora estaríamos encharcados até aos ossos. Mas por menos que isso também não valia a pena andar à chuva, não é?

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