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17 Setembro 2011

As Tentações de Santo Antão

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Não sei se As Tentações de Santo Antão é o melhor ponto de partida mas sempre acreditei que é o ponto de chegada que importa. Bosch fez algo raro. É um pintor moralizador. Na sua pintura vemos o bem e o mal, o certo e o errado, vemos as trevas, o fogo que nos há-de lamber o corpo se não nos arrependermos amarguradamente dos pecados. E no entanto vemos figuras antropomórficas, peixes que voam, elementos que nos fazem sorrir. O mundo é uma torneira que goteja sem parar por mais que se tente consertar. Bosch sabia-o. Há-de ser sempre assim. Cada um de nós é um ermita permanentemente a ser testado. Há demónios que nos prometem o paraíso e nos largam sem piedade, há labaredas que nos cercam, há uma solidão imensa num mundo de loucos, há garrafas de cerveja que rolam no chão, gritos e uivos, risos exagerados, sons de vidros a estilhaçar. Em Bosch a salvação está no centro. N'As Tentações Jesus espreita lá no meio. A cidade arde, os demónios andam à solta, o esgoto está permanentemente a despejar vestígios de um mundo decadente. Talvez tenhamos de passar o olhar todo pelo tríptico até encontrar a salvação ao centro, discreta, simples. Entretanto a penumbra envolve tudo. O fumo negro cobre os céus. As tentações fascinam-nos. As figuras fantásticas desviam-nos o olhar. Há algo de sedutor no mal e que o bem não tem. O bem não magnetiza, não atrai nem fascina. Bosch viveu há cerca de cinco séculos - 2016 será o ano do quinto centenário da sua morte - e captou muito bem a dimensão maravilhosa do mal. É isso que os seus quadros têm de único: entornou em madeira de carvalho toda a miséria do mundo e faz-nos querer olhar para ela com pormenor, quase maravilhados, quase esquecidos de nós. Só então percebemos que Bosch nos retratou com perícia e que mesmo no meio das trevas (quem fala n' As Tentações pode falar também d' O Juízo Final) há sempre lugar para a esperança, que espreita sempre por algum lado, que espera pacientemente que a encontremos, sem precisar de seduzir ninguém, porque precisamos dela como de pão para a boca, e haveremos sempre de lá chegar. Porque é isso que importa.

PS: Não deixem de visitar "Confrontos - Bosch e o seu Círculo" até dia 25 de Setembro no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa. 

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